Você já esteve diante de uma situação que parecia não ter saída? Eu já.
Era o mês de dezembro de 2009 e eu havia concluído o sexto semestre da graduação em Comunicação Social. Ainda faltava um ano para a formatura, bem como todos os recursos financeiros para pagar as mensalidades, comprar materiais específicos para as disciplinas e custear o internato onde eu vivia.
Assim como nos anos anteriores, me preparava para mais uma jornada de trabalho de porta em porta para oferecer literatura sobre saúde, família, educação de filhos e espiritualidade, iniciativa que me permitia obter os recursos que eu precisava. Talvez você nunca tenha recebido alguém com essa proposta em sua casa, mas trata-se de um colportor evangelista. Seu objetivo principal não é a venda, mas compartilhar esperança e conhecimentos que ajudem a melhorar a vida das pessoas. Era isso o que eu fazia.
Embarquei em um ônibus que partiu do interior de São Paulo com destino a Foz do Iguaçu, no Paraná. Ali fui para uma casa com outros estudantes, bem pertinho da Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai. E se você está se perguntando se eu comprei alguma coisa no país vizinho enquanto lá estive, a resposta é não. Nem mesmo cheguei a atravessar para o outro lado. Mas isso é outra história.
Aquela cidade seria minha base, mas não meu território de trabalho. Por isso, poucos dias depois já estava em outro ônibus em direção a uma pequena cidade que ficava a cerca de 80 km. Eu nunca estive ali e não conhecia um único morador. Como ocorreu em outras vezes, o caminho precisava ser desbravado. Depois de perguntar para um e para outro, e caminhar muito, cheguei até a casa de uma família de adventistas do sétimo dia. Eles gentilmente me acolheram.
Um Deus bondoso
A casa era pequena e eu estava hospedado no quarto de um dos filhos, mas não poderia ficar por muito tempo, já que em breve eles chegariam para as festividades de fim de ano. Em menos de uma semana naquela cidade, visitei o dono de uma churrascaria onde também funcionava um hotel. Após explicar o que estava fazendo ali, apresentar informações relacionadas ao cuidado com a saúde física e espiritual, e oferecer os quatro títulos que eu carregava em minha mochila, suas palavras foram objetivas: "Não vou ter ajudar!"
As risadas que demos ao longo da conversa haviam cessado. Enquanto eu me preparava para interromper aquela longa pausa e lhe perguntar o motivo – talvez a falta de interesse em livros; quem sabe até mesmo a dificuldade para adquiri-los –, ele continuou: "Não dessa forma. Vou te ajudar de outra."
Aquele senhor, que não deveria ter mais do que 65 anos, me contou que havia enfrentado muitas dificuldades quando criança. Começou a trabalhar cedo e aos poucos, com determinação, foi construindo sua vida. Por isso, valorizava quem saía em busca dos seus objetivos e não desistia de seus sonhos. Sem saber, ele estava me ajudando a não desistir dos meus.
Com suas feições de avô e um sotaque carregado, completou: "Fique aqui no hotel durante os próximos 30 dias em que você ficar na cidade. Vou te dar acomodação e as três refeições do dia. Por tudo isso, você vai pagar diárias de apenas nove reais." É claro que eu não acreditei no que estava ouvindo. Eu não gastava menos de 15 reais para almoçar. Ter tudo aquilo por um valor simbólico demonstrava o cuidado de Deus por mim naquele lugar desconhecido.
Aceitei sua oferta e no mesmo dia me mudei para lá. O proprietário só não gostou quando, convicto, disse que eu apreciaria muito as carnes que eram servidas na churrascaria, já que os animais eram criados por sua família, e revelei a ele que sou vegetariano. Mas ao longo do tempo – e de suas tentativas de me convencer do contrário –, nos demos bem.
Ao entrar no quarto, agradeci a Deus por sua bondade. Aquela era uma grande questão que Ele havia solucionado para mim. Um verso bíblico muito oportuno veio à minha mente: "Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?" (Mateus 6:26).
Um beco sem saída
Na manhã seguinte, saí novamente de porta em porta. Havia visitado a prefeitura recentemente e recebido um balde de água fria. Os funcionários que me atenderam disseram que a população não teria interesse no meu trabalho. Afinal, aquela era uma cidade diferenciada: recebia generosas verbas financeiras devido à construção da usina hidrelétrica de Itaipu. O hospital público era mais avançado do que os particulares de grandes cidades.
Esse era um argumento frequente usado por aqueles que me recebiam em suas casas. "Se tivermos qualquer problema de saúde, temos um bom hospital"; "Recebemos muitas orientações sobre a importância de cuidar do nosso corpo"; "Temos muitas atividades físicas gratuitas que nos ajudam a manter tudo em bom funcionamento".
Embora pequena, a cidade estava se tornando grande, já que a dificuldade para fechar encomendas da literatura estava aumentando gradativamente e eu precisava caminhar mais. Às vezes, voltava para o hotel tarde da noite sem ter fechado um único pedido. O relógio corria, e a preocupação atingia níveis estratosféricos.
Alguns dias eram melhores do que outros, mas muitos eram piores do que todos os bons juntos. A hora de voltar para os semestres finais se aproximava e eu não conseguia fazer grandes avanços. Diante disso, um pensamento começou a se tornar mais frequente: "Talvez eu não consiga me formar neste ano. Talvez eu tenha que trancar a faculdade e trabalhar ao longo dos próximos meses."
Já tinha visto Deus realizar milagres na minha vida, mas comecei a enxergar apenas a escuridão do túnel e não ver saída. Em menos de 15 dias eu precisava estar em São Paulo, e os resultados não eram nada bons. Àquela altura, eu já havia me esquecido do texto de Mateus 6:26. Estava preocupado com minha performance e me esquecendo de quem rege o universo e tem o controle de todas as coisas (Jeremias 10:12).
Ao estudar a Bíblia no início das manhãs seguintes, fui empurrando a preocupação par o lado ao decidir deixar que Ele fizesse a Sua vontade na minha vida. Eu deveria ser apenas um instrumento, e não o arquiteto. Me apeguei, então, a outro texto: "Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus, é contigo por onde quer que andares" (Josué 1:9).
Confiar: uma sábia escolha
Eu faria a minha parte e deixaria Deus fazer a Sua, da forma como Ele quisesse. Era fácil? É claro que não. Mas era precisava confiar em Sua direção. Não relaciono o que aconteceu em seguida com um processo de causa e efeito, mas à sabedoria divina e às lições que muitas vezes precisamos aprender ao longo de nossa caminhada espiritual.
Incrivelmente, as portas foram se abrindo, o "sim" se tornou frequente e a esperança despontou outra vez. Em pouco mais de 10 dias eu havia conseguido aquilo que parecia impossível. Conheci pessoas especiais e pude compartilhar um pouco do que é viver pela fé. Voltei para as aulas não com tudo o que precisava para aquele ano, mas com uma lição que jamais esqueci: Ele abre portas. E abriu tantas outras depois disso que não dá pra contar aqui. Ah, e sim, me formei no final daquele ano. Já faz tempo.
